O ano de 2022 marcou um divisor de águas em nossa história: foi o momento em que decidimos formalizar nossa trajetória nos setores de desenvolvimento e cultura. Embora nossa atuação já estivesse enraizada em práticas territoriais e na escuta ativa das comunidades, a formalização da Narractiva representou o compromisso institucional com a transformação social e a excelência criativa. Desde então, deixamos de ser apenas observadores para nos tornarmos articuladores de impacto. Nossa jornada é pautada pela crença de que a cultura não é um setor isolado, mas o eixo central do desenvolvimento humano e econômico. Ao longo desse percurso, consolidamos metodologias que unem a comunicação popular à gestão estratégica, focando sempre na soberania das narrativas periféricas e na salvaguarda da memória viva. A Narractiva nasceu para dar forma jurídica a um desejo antigo: o de profissionalizar a potência criativa da Baixada Fluminense, transformando ideias em projetos estruturantes que dialogam com o poder público, a iniciativa privada e, principalmente, com os fazedores de cultura locais.

2022 não foi apenas o ano da nossa formalização burocrática; foi o ano em que assumimos a responsabilidade de ser ponte, rede e voz para o desenvolvimento cultural que acreditamos.

A Semana das Culturas, Artes e Ciências da Baixada Fluminense (SBF2022) constituiu-se como um dos maiores movimentos de resistência e articulação em rede da região. Realizada de forma totalmente independente, a SBF2022 precedeu a implementação dos editais federais como a Lei Paulo Gustavo (LPG) e a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), provando a força e a autonomia do setor cultural local. A viabilização do evento foi possível exclusivamente graças à entrega abnegada dos agentes culturais da Baixada, que participaram de toda a construção, curadoria e execução sem receber qualquer tipo de incentivo financeiro ou remuneração. Foi um esforço coletivo movido pelo desejo de combater o apagamento histórico de nossas narrativas e afirmar a existência de uma potência criativa que pulsa à margem do fomento oficial. O ponto alto de maturação desse processo foi o lançamento do Manifesto Cultural da SBF22. Este documento histórico não apenas sintetizou os anseios e as reivindicações dos fazedores de cultura locais, mas também estabeleceu as bases conceituais para o que definimos como a "Nação Baixadense". Ao unir o setor acadêmico (IFRJ e UFRRJ) aos saberes populares, a SBF2022 e o seu Manifesto consolidaram o "know-how" e a legitimidade que hoje fundamentam a trajetória da Narractiva, reafirmando que o registro e a articulação em rede são as nossas maiores ferramentas de soberania e desenvolvimento territorial.

SBF2022: O Marco da Nação Baixadense e o Manifesto Cultural

A Semana das Culturas, Artes e Ciências da Baixada Fluminense (SBF2022) nasceu de uma motivação histórica profunda: a celebração dos 100 anos do Manifesto de 1922 da Arte Moderna. Inspirada pelo espírito de ruptura e renovação dos modernistas, a SBF22 propôs uma releitura contemporânea e periférica desse movimento, afirmando que a vanguarda criativa do Brasil pulsa hoje com força nos territórios da Baixada. Embora idealizada por Tigu Guimarães, a SBF2022 foi uma execução compartilhada entre diversos agentes culturais e membros da sociedade civil. O evento materializou-se através de uma coalizão orgânica que uniu o saber de membros do IFRJ e da UFRRJ — professores e pesquisadores que atuaram de forma colaborativa — à resistência vital das bibliotecas comunitárias, pontos de leitura e coletivos artísticos. Essa gestão horizontal permitiu que o movimento ocorresse de forma totalmente independente, precedendo a chegada dos recursos da Lei Paulo Gustavo e da PNAB. Durante uma semana intensa, culminando simbolicamente no Dia da Baixada Fluminense (30 de abril), o projeto realizou centenas de atividades simultâneas em todos os municípios que compõem a Baixada Fluminense. De Magé a Itaguaí, a região foi ocupada por um mosaico de ações viabilizadas pela entrega voluntária de profissionais que, sem receber remuneração, investiram seu "know-how" para construir a identidade da "Nação Baixadense". O ponto culminante dessa maturidade política e coletiva foi o lançamento do Manifesto Cultural da SBF22, um documento assinado a muitas mãos que atualizou os anseios de 1922 para a nossa realidade. Sem incentivos governamentais na época, essa rede provou que a cultura na Baixada é uma construção de muitas vozes e uma ferramenta de soberania, consolidando a base de cooperação que hoje define a trajetória da Narractiva.

O Centenário Modernista e a Celebração da Nação Baixadense

Manifesto SBF22

A Cultura como antropofilia, acesso maior ao conhecimento edesenvolvimento em: ciências, direitos, educação, arte, saúde, conscientização ... Cultura para olharmo-nos e nos reconhecermos como parte do todo num pertencimento progressivo, sem que isso represente oposição ao que vem da capital do Estado ou venha do estrangeiro. Somente para valorização do que é nosso, de nossa capacidade criativa e do que desperta interesses à prática e aos avanços. A Baixada Fluminense é feita de influências muito variadas, somos indígenas, portugueses e afrodescendentes, somos “nordestinos”, “capixabas”, “mineiros”, “cariocas”. Somos uma mesorregião que se constrói com diferentes trocas de vários lugares do Brasil e sobretudo, desde seu povoamento, em trocas com a capital, o Rio e outras. Passaram por aqui: Hans Staden, escritor alemão (que quase sofreu antropofagia); Jean de Léry, escritor francês; Auguste Saint-Hilaire, naturalista francês; Daniel Parish Kidder, escritor/pastor estadunidense; Jean-Batiste Debret, pintor/desenhista francês; Johann Moritz Rugendas, pintor desenhista/gravurista alemão e Carl Friedrich Phillip von Martius, historiador/naturalista alemão; entre outros “estrangeiros” em nossa formação e história. Somos uma imensa colcha de retalhos, alinhavada e entretecida de culturas, dos povos originários e dos que vieram depois, vide: italianos, libaneses, japoneses, africanos, chineses, portuguêses, árabes, etc. Um plural e agitado território, sempre costurado e (re)visitado. Queremos o fortalecimento de espaços, de expressões artísticas, da cadeia produtiva, de grupos e da economia criativa. Respeitando as diferenças, contra imposições fascistas, negacionistas e toda essa brutalidade que reverbera e que possa vir de planos federal, estadual ou municipal à cultura. Repudiamos quaisquer atitudes antidemocráticas. Queremos a Antropologia Cultural como conscientização de nosso papel sociopolítico e socioeconômico, de responsabilidade para reinventar o Brasil, pontuando a antropossociologia da nossa região, que quase sempre sofre com estereótipos, estigmas e exclusões, também pela proximidade divisória a capital centralizadora, a cidade do Rio de Janeiro. Ainda temos poucos equipamentos culturais para realização de projetos, mesmo diante de tanta riqueza individual, coletiva e multicultural. Ainda fica parte da criação/arte a mercê de editais que nem sempre contemplam a maioria de sua demanda. Queremos dar maior visibilidade às expressões culturais (materiais e imateriais) e científicas baixadenses e levar a nossa produção cultural ao mundo todo como todo o mundo que cabe aqui. O IDHBF (Índice de Desenvolvimento Humano da BF) é baixo ou pífio para uma população que ultrapassa a 4,5 milhões. Numa divisão per capta a Capital leva um percentual de recursos alto, absurdamente desproporcional, gritante. Segundo pesquisa, dos 39 equipamentos culturais do Estado do Rio de Janeiro, 29 estão na capital do Estado e NENHUM na Baixada Fluminense. Queremos cultura para elucidar e valorizar a identidade da Baixada Fluminense; de inserção, de difusão em todo os seus aspectos, como “máquina condutora” de tudo que manifesta, revoluciona e galga vanguardas. O que puxa, o que movimenta, o que dá sentido. Região que há muito deixou de ser de cidades dormitórios, que acordou para realizar muitos de seus sonhos. Porém, ainda, se depara com insanidades e mesmo assim não perde a capacidade de sublimar. E é daí que se constrói a nossa força, pois desconhecemos algo tão mais fantástico quanto a arte. Arte que é pedagógica, nos ensina o tempo todo! É fruta que dá em gente como laranja dessa terra! Que a Semana de 2022, de Artes, Culturas e Ciências na/da Baixada Fluminense decorra, através de seus adeptos, por toda a mesorregião, que são 13 municípios: Duque de Caxias, São João de Meriti, Nilópolis, Belford Roxo, Queimados, Japerí, Mesquita, Magé, Guapimirim, Paracambí, Itaguaí, Seropédica e Nova Iguaçu [ou qualquer ação que referencie a Baixada, vindo de onde vier], no período de 25 de abril a 1º de maio de 2022. Passando exatamente pelo Dia da Baixada Fluminense [30 de abril], podendo se manifestar antes ou seguir eventualmente após essa data. Que todas as manifestações, da maior à menor, sejam das artes/ciências ou pelas artes/ciências. Que venha abrangendo envolvimentos cultural/científico. Que referencie a região, que fomente culturas e ciências aqui produzidas e/ou consumidas. Que revisitar o passado seja para modificar o futuro! Ancestralidade é futuro. Que sozinho a gente não faz nada, a gente não é nada. Que seja um movimento adepto de evolução tanto no coletivo quanto no individual. Que seja disseminador. Mãe Beata nos dizia: “Numa forte tempestade um bambu sozinho se quebra fácil, fácil. Mas quando ele está no bambuzal...”. Pretende-se a ruptura da ideia de que a cultura só se expande com financiamento público. Os diversos segmentos da sociedade podem e devem participar desta propagação. Que se lance mão de quaisquer vitrina, posto em acordo, entre o possível e o imaginário (prefeituras, secretarias, autarquias, academias, universidades, centros de atividades, fundações, shoppings, ONGs, escolas, pontos, templos, praças, casas, ruas, paisagens, monumentos, construções, ambientes, etc; etc...), onde a possível arte ou expressão aconteça ou fique alocada, instalada, afixada ou exposta e/ou que venha beneficiar a Semana, inclusive realizações, em prol, que a anteceda. Mas, que não sirva de palanque eleitoral. A arte pulsa na Baixada!!!! O ritmo está acelerado, o cenário, nosso horizonte na capacidade de qualquer um, esperando, ali defronte.

O Grupo de Trabalho Manifesto.

A Semana das Culturas, Artes e Ciências da Baixada Fluminense (SBF2022) não foi um evento de uma única voz, mas um coro de saberes e resistências. Para celebrar o centenário do Manifesto Modernista de 1922 sob a nossa ótica territorial, foi necessário um esforço de articulação sem precedentes, movido pela entrega voluntária e apaixonada de centenas de agentes culturais. Os nomes e rostos que você vê aqui representam somente uma fração da força motriz dessa construção compartilhada.